Não se deixe afastar da parcimônia
Use sempre a bússola da razão
Pois quem busca o prazer sem cerimônia
Ficará sempre escravo da paixão

Nunca feche os olhos pra beleza
Veja em tudo o sopro do Criador
Sintonize com a paz da natureza
Que irradia alegria e muito amor

Se lhe falta um amigo na jornada
Que a abrace, ou mesmo, estenda a mão,
Busque em si mesma a paz amealhada
Em um cofre carmim: – seu coração!

A sábia natureza nos ensina
O milagre da renovação:
Não haveria equilíbrio na Terra
Se eterna fosse uma estação.


Assim, eu te proponho...
Antes que todo nosso sonho
Se transforme em pesadelo,
Vamos reconstruir nosso jardim

Com amor e desvelo.
E, assim, lindas flores surgirão
Das minhas lágrimas esquecidas
No altar do teu coração
"Eu não tinha este rosto de hoje"
Cecília Meireles, in Retrato

O espelho reflete outra imagem
Que não aquela que de mim recordo
A pele lisa, o olhar brilhante:
"Eu não tinha este rosto de hoje".

O espelho reflete outra imagem
Que o tempo se encarrega de esculpir
Cada ruga representa a coragem
Que nos instiga a nunca desistir

Teima também, o espelho, em revelar
As cicatrizes que da alma emergem
E que tentamos, em vão, disfarçar...


E sempre e sempre o espelho a consultar
O tempo passa e nunca percebemos
Se foi o espelho ou nós que envelhecemos.

Quem pensa que o amor inventa
Presume-se Criador!
O amor é pré -existente
Ao próprio Universo.

É ele quem se anuncia
Na beleza das flores,
No azul do mar e do céu,
Nas verdes pradarias
E na hora da Ave-Maria!

Esparge seu hálito
Na penumbra das florestas,
Nas cordilheiras nevadas,
No luar do sertão
E no enamorado coração...

Cantado em verso e prosa
Inspira o poeta
A ver em tudo a sua essência.

O amor é também sentimento,
É atração, doação,
Alimento do corpo e da alma
O amor é perdão!
Ainda era dia...
Na crista dos montes distantes,
A tarde bocejando se escondia
Nas nuvens douradas do horizonte.

Num galho próximo,
Duas juritis apaixonadas
Não se intimidavam
Com a arenga do bem-te-vi.

As rosas inquietas no jardim
Se agitavam de volúpia,
Desprendendo das suas corolas
O perfume que no ar se expandia.

Ainda era dia...
Quando o navio do tempo
Atracou no cais do desencontro
E ele a viu partir.

Nada fez para impedir
Nem poderia - ou poderia?
Nunca saberia!

No horizonte, algo ainda se via...
Um lenço agitado ao vento,
Ou uma gaivota seria?

Nada mais importava,
Ambos se foram...
Mas a dúvida, não!
És Tu, Ó Avatar, que estás atento
Ao som da cítara dos meus sentimentos
Aproximando-Te, dando-me alento
Nas horas de exacerbado sofrimento?

Como indócil cavalo selvagem
Não tenho aceitado arreios,
Cela, brida ou freios,
Que dificulte o meu cavalgar...

Quero seguir o “Madrinheiro”
Guiando-me pelos vastos campos
E altos desfiladeiros
Até às puras nascentes chegar

E nas suas águas límpidas mitigar,
A minha implacável sede de Ti...
A noite prenunciando
Uma longa madrugada

Encontrou-me acordada
Vigilante, na expectativa
De que a Alvorada
Da Tua presença viva

Não me encontre adormecida
Aos Teus sinais, desatenta,
Trocando mantras por lamentos
E de que és Pai e Mãe esquecida...
Entre as lágrimas choradas
Nem todas foram contadas
Sobretudo, as que brotaram
Do fundo do coração.

Por que choram as pessoas?

Umas choram de alegria
Num momento de emoção,
Outras choram de saudade,

Outras, de felicidade
E existem as que choram
De tristeza e solidão...

Por que choram as pessoas?

De uma coisa tenho certeza
Não conheço nenhum santo
Que não verta o seu pranto
No momento de emoção.

Ao longo de angustioso caminho
andei às cegas
para a noite de meu coração;
Oh ! subitamente o esplendor,
Um infinito mundo de luz.
Rumi


Quem sou?
Sou o corpo
Ou nele estou?

E se nele estou,
De onde vem a parte
Que nele se abrigou?

Faço silêncio. ..
E desaparecendo dentro de mim,
Busco o Cristo interior,

Para que o esplendor
Da sua luz,
Possa iluminar

As sombras da ilusão do Nada
E mostre ao mundo,
O fulgor do Tudo.

Nada sei do desejo
Nada sei da paixão
Há volúpia no beijo...
Ou somente atração?

Tudo sei da saudade
Tudo sei da procura
Tudo sei da unidade
Tudo sei da ventura.

Nada sei do Tudo
Ou tudo sei do Nada?
Apagando as luzes,

Tudo é mesmo... nada?!
E a origem de tudo?
- Causa Incriada.

Como um rouxinol
Cantava minha mãe
Desde o amanhecer
Até o pôr-do-sol.

Sua voz afinada
Por toda casa irradiava,
Trazendo alegria
E bem-estar ao coração.

Certo dia...
Um domingo, ainda lembro,
Acordou-me, muito cedo,
Para que eu fosse à missa.

Levantei-me, sonolenta
E lentamente vesti
Meu vestido branco de organdi.
Calcei meias brancas

E um bendito sapato
Comprado na feira, mais barato!
Quando à igreja cheguei
Esta já estava lotada,

Nenhum banco encontrei
Para ficar sentada.
Era a missa solene
De São Roque, o padroeiro,

O coral que era afinado
Estava bastante afiado
Para cantar em latim!
Com exceção da homilia,

Toda fala que existia
Era dita em latim :
- Dominus vobiscum,
- Et cum spiritu tuo.

Passadas quase duas horas,
O meu vestido novo
Estava com a blusa
Molhada, de suor.

Nos sapatos, os dedos apertados
Encolhiam e se expandiam
Mudando de posição.
Finalmente a missa acaba

E retorno para casa,
Com os pés doídos e calejados.
Mas, oh! Aflição...
Se andar no plano era um martírio

O que dizer de uma ladeira
De grande inclinação?...
E o cruel e rangedor sapato
No meu ouvido a arengar

Com aquele ruído invulgar...
Mas no início da escalada
Ouço uma voz cristalina
De nascente divina,

Poderosa, a cantar:
“Ouviu-se, uma voz lá nos Céus
Entoando suave melodia,
Era um anjo, que no trono de Deus,
Cantava: Ave-Maria ...”

Quase de joelhos
Cheguei à porta de entrada
- Pois a porta da nossa casa
Durante o dia, não era fechada,

Estava sempre aberta
Para todos os chegantes
E também para os pedintes –
Exausta, na sala adentrei

E no sofá descansei...
Descobrindo no meu lar,
Um lindo templo de Deus,
Onde a madre sempre cantava

- Mesmo quando reclamava -
E o padre sempre pregava
- Mesmo quando castigava -
Sobre o amor e a união.

Anoitecia...
As sombras noturnas pintavam de negro
As silhuetas perfeitas
Das árvores, do casario
E das distantes montanhas.

Tranqüilo, corria o rio
Dos sentimentos adormecidos
Em suave e calmo langor...

Aos poucos surgem retalhos da sua história,
Que jaziam escondidos
Nos porões da sua memória.

Pequenos gestos, cenas perdidas,
Promessas e beijos,
Palavras esquecidas...
E amortecidos desejos!

O revoar das aves
O zunido do vento
E o pipilar dos pardais

Ecoavam como lamento
De divina origem
Lembrando-o que a vertigem
Da vida o oblitera,

Desviando-o da meta
De ser luz e iluminar
Embrutece-o e não sacia
A sua sede de amar!

Quem passa a vida
A contabilizar
Débito e crédito
Sempre, sem parar

Não pensa um pouco
Nem se dá um tempo
Pra outros tesouros amealhar...

Os anos passam
E um dia desperta
Com catarata
Nos olhos da alma

Não vê o sol
Nem vê a claridade
Que doura a mata
Ao entardecer;

Ensurdecido,
Já não mais ouve
O canto das aves
Ao amanhecer...

E o coração,
Exausto e solitário,
Sem ter um lume
Para o aquecer,

Pensa que é pássaro
Preso na gaiola
Pra libertar-se...

Deixa de bater!
Não tema! Mostre ao mundo
Seu verdadeiro rosto,
Há tempos escondido
Debaixo de véus

Olhe-se no espelho!
Fite os seus olhos,
Que estão vermelhos
De tanto chorar.

Saia para a rua!
Sinta-se despida,
Exponha a ferida
Que não quer curar...

... E o sol benfazejo,
Rubro de desejo,
Irá lhe dar um beijo,
Por você se amar!

(In “Estação do Amor - 2000)
Inebriada de amor
Minh’alma altiva clamou:
“Deixa Senhor que eu seja o teu cantor
“E que o meu cantar
“Seja um hino em teu louvor”

Após o silêncio que em seguida imperou
Uma voz singular ecoou
Na concha do meu ouvido:

“É fácil atender ao teu pedido
“E para muitos antes de ti
“A mesma petição deferi...

“Na fauna, o rouxinol, a humilde juriti
“E quem na densa floresta adentrar
“Poderá escutar o uirapuru a cantar

“Mas neste mundo de eterno competir
“Quem tem parado para me escutar
“Na voz do pássaro a cantar,
“Ou meditar no seu próprio existir?

“Em Assis, séculos atrás,
“Um rapaz abandonou a guerra
“E regressando à sua terra
“Construiu uma capela para me louvar

“Mas a alegria dos pobres,
“Que ali se reuniam, durou pouco
“Incendiaram o pequeno templo
“E o trataram como louco...

“Mas ao queimarem a capela
“Tive o mal a meu serviço,
“Prestando-me real benefício;

“Mostrando que posso estar
Permeando o universo
“E na natureza expresso
“Meu amor pela criatura,

“Que terá toda ventura
“Quando, como Francisco,
“Ver-me sempre refletido

“Na beleza da criação...
“E louvar-me com alegria
“No altar do seu coração”

Emudeci compreendendo o teorema;
Com lágrimas nos olhos, humildemente, pedi:
“Pai, deixa-me ao menos escrever poemas?

Vindo do jardim, um som conhecido ouvimos:
“Bem-te-vi!”
Sorrimos...

(In “Estação do Amor” – 2000)
Cultivando ansiedade
Andam sempre as pessoas,
Cada vez mais apressadas
Como se fosse a vida
Uma eterna maratona a vencer!

Pressa, pra quê?

Gosto de sair de casa mais cedo,
Pra não ter que correr...
Gosto do meu ritmo, aparentemente lento,
Mas, no íntimo, tão intenso, de viver.

Pressa, pra quê?

Gosto de acompanhar a lua,
Na sua trajetória, até desaparecer.
Gosto de olhar uma estrela
E, após algum tempo, muitas outras ver.

Pressa pra quê?

Gosto de sempre estar consciente,
Para os sinais da Tua presença perceber...
Desde o despertar...
... Até o adormecer!

Pressa... pra quê?

(In “Estação do Amor” – 2000)
À noite, a rosa se fecha,
Pétala a pétala,
A brisa suave sopra-lhe,
Canção de acalanto,
Ela dorme e sonha com o amor...
Desprende da sua corola suave olor,
Que impregna o ar,
Inebriado, o colibri apaixonado,
Vem sorver o seu néctar...
E ela desperta, as pétalas se abrem,
Faz-se rosa-plena... rosa-doação!
Quando amanhece,
O sol a encontra desfeita.
Suas pétalas atapetam o chão.